terça-feira, janeiro 03, 2006

Sócrates e Belém!

O discurso político de José Sócrates obedece a uma estratégia de comunicação concebida com profissionalismo e posta no terreno com eficácia.
O primeiro ministro não abusa das intervenções públicas, faz uma gestão inteligente dos seus comentários sobre as questões de actualidade, poupa-se aos problemas mais incómodos e tira proveito dos pontos fortes da acção governativa. Se há lacuna que não se pode apontar ao chefe do Governo é a de «comunicar mal».Com isso conseguiu ter – pelo menos até agora ...- a chamada «boa Imprensa», passando por entre as «gotas da chuva» que, com justificação, atingem alguns dos membros do seu Executivo.
Para se ser inteiramente justo, deve dizer-se que não há política de imagem que funcione sem alguma substância a sustentá-la, ou seja, há mérito suficiente naquilo que o governo já fez para explicar os «juros» que Sócrates tem conseguido capitalizar.
Em matéria de eleições presidenciais, Sócrates não se desviou desse rumo cauteloso que tem marcado a sua relação pública com o eleitorado. Tem prestado a Mário Soares apoio q.b. , mas não enveredou pelo tom do discurso do candidato, nomeadamente no que se refere a referências ao provável vencedor, Aníbal Cavaco Silva. Tem sido, por sinal, muito curiosa a multiplicidade de textos na Imprensa (inspirados sabe-se lá por quem...) a sugerir que uma vitória de Cavaco seria bem mais conveniente para Sócrates do que a presença em Belém de um dos candidatos da esquerda. O próprio Cavaco não se tem cansado de vincar a sua «vontade de colaboração» com o primeiro ministro e tem sido muito parco nas críticas ao Governo.
Sócrates não pode, mesmo assim, subestimar duas questões políticas de primeira importância neste domínio das presidenciais: Mário Soares necessita, pelo menos, de ser o segundo candidato mais votado, sem o que a autoridade do secretário-geral do PS, designadamente face ao seu próprio partido, conheceria um rombo sério; em segundo lugar, seria prudente não se entusiasmar em excesso com a prometida «cooperação estratégica» de Cavaco. Ainda nem começou a campanha e já o candidato do centro-direita não resiste a propostas concretas relacionadas com a esfera governativa.
Uma vez (e se for...) eleito, dificilmente Cavaco se absterá de intervir, de uma ou de outra forma, naquilo que é a sua maior vocação: a acção executiva.
Cá estaremos para ver...

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